Coherence, um suspense sci-fi independente
lançado em 2013, é um desses filmes que talvez você não conheça, é também uma dessas
obras perturbadoras da mesma categoria de Donnie Darko, O Predestinado e
Amnésia, por exemplo. Se você já viu um deles, já sabe do que estou falando. Aliás,
essa produção se encaixa bem no meu post Os melhores filmes-cabeça de todos os tempos.
Dirigido pelo roteirista da animação
Rango, James Ward Byrkit, Coherence – seu primeiro trabalho como diretor – é uma
obra que desafia a nossa mente, no melhor estilo “blow your mind”, sendo assim,
é categórico que você saiba o mínimo possível sobre a trama de Coherence. O que
você pode saber é apenas isso: oito amigos se reúnem para um jantar na casa de
um deles na noite em que um cometa está passando pela órbita da Terra. A noite
vira um caos quando coisas estranhas começam a acontecer. Isso é tudo!
Há cinco anos Ridley Scott retomava a franquia Alien
com Prometheus, uma obra indigesta e confusa, ninguém “abraçou” o teor
existencialista da ficção que apresenta apenas ameaças e promessas (não
cumpridas). Agora, em Alien: Covenant (2017), Scott faz o
oposto e literalmente “toca o terror” em um filme visceral e sangrento.
Alien: Covenant não é melhor ou
tão bom quanto o original de 1979 (a crítica especializada é muito ingênua ao esperar isso), na verdade, não precisa ser, o mais importante é que Covenant é
muito superior a Prometheus. E isso já basta.
Vendido como “suspense espacial”, Passageiros (Passengers,
2016) está mais para “romance espacial”, tendo isso em mente, fica mais fácil
você gostar do filme e evita frustrações. Dirigido por Morten Tyldum (O jogo da
imitação), Passageiros é um sci-fi raso, repleto de clichês e não traz nenhuma
novidade ao gênero.
Chris Pratt e Jennifer Lawrence protagonizam essa história de
romance no espaço, e ainda bem que eles possuem química em cena e convencem
como casal apaixonado, pois é claro que os dois astros mais queridos e
cultuados de Hollywood do momento não estão juntos aqui à toa. Felizmente, o
carisma dos atores evita que o filme seja um total fiasco.
Desde que chamou a atenção de
Hollywood com o elogiado Incêndios, o
cineasta Denis Villeneuve vem construindo uma filmografia impecável e de dar
inveja, seu último filme, o sci-fi A
Chegada (Arrival, 2016), é mais um trabalho imperdível desse diretor que até
agora não “errou a mão”.
Em A Chegada, pode-se perceber
traços de outros filmes de Villeneuve, o suspense psicológico de Os Suspeitos,
o toque enigmático de O Homem Duplicado e a tensão de Sicario: Terra de Ninguém
dão o tom nessa ficção científica de sensibilidade ímpar e com pose de
clássico.
Em tempos em que os filmes de ação se resumem basicamente a
filmes de super-heróis e de agentes (Kingsman, Jason Bourne), é reconfortante saber
que, fora do mainstream, tem gente no
cinema trabalhando para trazer inovação a esse gênero tão subestimado e
oferecer ao público uma obra desafiadora, ousada e diferente de qualquer filme de
ação que você tenha visto ultimamente, é o caso de Hardcore: Missão Extrema
(Hardcore Henry, 2015), do estreante diretor russo Ilya Naishuller – que também
roteirizou o longa – e protagonizado por Sharlto Copley (Distrito 9, Elysium).
Sabe esses vídeos em que uma pessoa com uma câmera GoPro
atrelada à cabeça realiza perigosas aventuras de bike ou esportes radicais e
nos deixam tontinhos, parece até que estamos ali com ela? Pois então, Hardcore: Missão Extrema utiliza esse
recurso de uma maneira bastante eficiente durante todo o filme, colocando o
espectador sob a perspectiva do personagem principal Henry.
Era
para ser uma sequência espalhafatosa e tão divertida quanto o original de 1996
- hoje em dia, já considerado um clássico dentre os filmes catástrofes -, mas
Independence Day: O Ressurgimento (Independence Day: Resurgence, 2016) é apenas
espetaculoso, talvez você se divirta, se não se incomodar com os personagens
caricatos e rasos, o abuso de clichês, os diálogos sofríveis, e não perceber
que a obra está subestimando sua inteligência.
A trama é um fiapo: alienígenas
com suas naves maiores que a Terra invadem o planeta e os humanos
precisam lutar contra eles de todas as formas possíveis. A dinâmica é exatamente
igual à da obra original, mas nada funciona aqui, parece que Roland Emmerich fez
tudo às pressas.
Em
2008, Cloverfield, um filme de monstro no estilo “câmera na mão” tornou-se um hit cinematográfico, caótico e
assustadoramente realista, o longa alavancou ainda mais o nome de J. J. Abrams. Dezesseis
anos depois – pois é, passou rápido hein – estreia Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield
Lane, 2016), inaugurando uma nova antologia do cinema na qual o monstro da vez
não é exatamente apenas uma criatura ameaçadora e alienígena, mas o próprio ser
humano.
Quem
vai ao cinema esperando uma sequência nos mesmos moldes de Cloverfield - com aquela correria e a luta desesperadora pela
sobrevivência - pode “quebrar a cara” e
sair xingando o universo. Rua
Cloverfield, 10 é mais intimista, mais focado no elemento humano, mesmo assim, é tenso, é um suspense/sci-fi eficiente e que prende a atenção.
A criação de um robô com inteligência artificial e a sua
relação - geralmente conturbada - com o próprio criador, o homem, é novamente
retratada em mais uma obra relevante lançada este ano, Ex-Machina – Instinto Artificial (Ex Machina, 2015). A outra
produção que aborda o mesmo tema é a intrigante série Humans - clique aqui e confira a crítica.
Não dedicado a um público comum, Ex-Machina tem um tom
reflexivo, nunca cansativo e tensão do começo ao fim. O filme prioriza os momentos
de interação entre homem (Domhnall Gleeson, de Frank) e máquina (Alicia Vikander) acerca da inteligência artificial
e a consciência de ambos.
No enredo, Caleb (Gleeson)
é recrutado pelo dono de uma empresa tecnológica, Nathan (Oscar Isaac, do
aguardado Star Wars: O Despertar da Força) a participar de uma experiência inusitada
na sua casa, localizada em uma área isolada. Caleb é convidado então, a aplicar
o teste de Turing em uma robô com inteligência artificial. Criado por Alan Turing – que ganhou vida na
pele de Benedict Cumberbatch em O Jogo da
Imitação - o tal teste tem o intuito de verificar se a máquina consegue
mesmo se comportar de forma equivalente a um ser humano.
Em Ex-Machina, Ava,
a robô, é tão inteligente quanto o seu entrevistador, Caleb. Por sete sessões, o
espectador vai acompanhando o envolvimento entre o homem e máquina até chegar a
um ponto em que não sabemos quem está enganando a quem. A trilha sonora pulsante
e sempre presente e a relação de desconfiança entre os três protagonistas apenas
potencializa o desconforto que sentimos durante todo o filme.
Este é o primeiro filme que Alex Garland dirige, acostumado a
escrever grandes filmes como Dredd, Extermínio e Não Me Abandone Jamais, o
cineasta demonstra em Ex-Machina total
controle sobre a sua obra em todos os níveis, desde os diálogos espertos aos
efeitos especiais impressionantes.
Ex-Machina – Instinto Artificial é um sci-fi desconfortante, um
suspense com profundas discussões sobre o embate entre o homem e a sua criação,
que curiosamente sempre se mostra mais inteligente que o seu próprio criador.
O filme, muito bem recebido pela crítica e público, será
lançado este mês aqui no Brasil, diretamente em DVD.
O eterno dilema do homem
versus máquina ganha contornos realistas na reflexiva série Humans (2015),
produção do canal americano AMC com o Channel 4, do Reino Unido. O drama sci-fi
é uma refilmagem de outro programa de TV, Real Humans, produção sueca. Humans
encerrou a primeira e bem sucedida temporada - de oito episódios - este mês e devido à boa
audiência, foi renovada para a segunda temporada.
A ideia de vivermos cercados por robôs e que estes “sirvam”
apenas para nos “servir”, realizando nossas tarefas domésticas e atividades
afins, não é tão nova assim e nem é algo que está tão distante de nossa
realidade. Apesar dessa questão ser incansavelmente debatida em centenas de filmes
e seriados, Humans apresenta um novo olhar, mais intimista e real, sem efeitos espetaculares – ou
lutas grandiosas entre homens e robôs - para nos desviar a atenção do conteúdo, que aqui é o mais importante.
Na série sci-fi, somos apresentados primeiramente à família
Hawkins. Acompanhamos no episódio piloto a exaustiva rotina do pai ao cuidar
dos três filhos, sozinho. Com a ausência da mãe e os afazeres se multiplicando,
o patriarca decide comprar um synth (robô de alta tecnologia com aparência
humana, feito para realizar os trabalhos que os humanos já não querem mais
fazer, como limpar a casa, cozinhar, ir ao supermercado, enfim) para lhe ajudar
a colocar a ordem na casa. Anita (Gemma Chan, ótima atuação “robótica”) é a
robô misteriosa que além de ajudar a família nas tarefas domésticas, vai causar
muitas dores de cabeça também.
Desde o primeiro episódio, sabemos que Anita faz parte de um
seleto grupo de robôs especiais, que foram "presenteados" com inteligência
artificial e que por isso, possuem “sentimentos” e às vezes, são mais humanos
que os próprios humanos. Paralelo à subtrama da família Hawkins e a Anita, tem a história
desse grupo de synths, que se passam por humanos para
não serem "desligados". Há um mistério envolvendo esses robôs que apenas será
descoberto nos últimos episódios. Humans
é muito eficiente quando se trata de revelar lentamente os segredos da
história principal, segurando o espectador até o próximo capítulo.
Humans, a saga dos robôs sentimentais, levanta discussões
pertinentes dos dois lados, o do criador, o homem que criou um ser tão
capaz a ponto de causar-lhe o medo da própria invenção, e o lado da criatura, seres que são ameaçados e adorados pelos humanos na mesma proporção, mas desejam a liberdade, não apenas a servidão.
Questões como até que ponto o convívio com synths é saudável e/ou perigosa para
os humanos, o preconceito, a importância da família, o respeito ao que é “diferente”, são
densamente explorados na série.
Alguns rostos conhecidos integram o elenco, Colin Morgan – da
série The Fall e As Aventuras de Merlin - interpreta o Leo, Katherine Parkinson
(de The It Crowd) e William Hurt (do filme que aborda a mesma temática, A.I.
Inteligência Artificial) são alguns deles.
Com uma estrutura e atmosfera que lembra mais os seriados
britânicos e menos os americanos, muitos diálogos e um desenvolvimento que não
força os acontecimentos, Humans é uma
série bem curiosa, o que a torna bem única, para quem curte mesmo o gênero sci-fi, realista e intrigante,
com um universo amplo a ser explorado.
O que seria dos cinéfilos sem a originalidade e a lucidez do
cinema de baixo orçamento, ainda bem que nem todos possuem o cacife dos chefões
dos estúdios para produzir obras cinematográficas grandiosas, mas “vazias” e
previsíveis. Elogiado no Festival de Sundance, em 2014, a ficção científica O
Sinal – Frequência do Medo (The Signal, 2014), é uma dessas obras
fílmicas que nos surpreende e nos tranquiliza porque é a confirmação de que
ainda há seres inteligentes fazendo cinema autoral e não adaptações de alguma coisa.
William Eubank, diretor desconhecido, por enquanto, comanda o
suspense sci-fi sobre três jovens que perseguem um sinal vindo de um hacker
poderoso. Nic (Brenton Thwaites, de O
Doador de Memórias), Haley (Olivia Cooke, de Bates Motel) e Jonah (Beau
Knapp) chegam numa cabana isolada no meio do deserto e ali o pesadelo tem início
e todos terão suas vidas transformadas de forma inimaginável. Ah, o elenco também
conta com o Laurence Fishburne, que me faz lembrar muito aqui o seu papel icônico
em Matrix.
O Sinal é um daqueles filmes que não se pode
falar muito, quanto menos você souber, melhor. No entanto, a produção explora
por um ângulo distinto, questões muito conhecidas dos fãs de ficção científica,
como os mistérios da área 51, conspiração governamental, alienígenas, realidade
versus alucinação e possui elementos
que lembra até o cultuado filme Distrito
9.
Apesar de ter cenas de ação impressionantes e efeitos
espetaculares – para uma obra de baixo orçamento – O Sinal tem um tom levemente intimista e emocional, não tem
correria, tudo acontece de forma natural, sem pressa, é um filme para assistir
com atenção, sem esperar por explosões intermináveis.
Outro ponto forte do filme é o roteiro bem amarrado, que nos
deixa desorientados e sem respostas até os últimos momentos do longa, que
culmina numa sequência de revelações bombásticas e ousadas. Destaca-se também o
ator Brenton Thwaites, que vive o protagonista, além da notável atuação, carrega o filme sozinho com garra e pose de herói
superior a muitos garotinhos de franquias milionárias.
O Sinal - Frequência
do Medo- que título horrendo, não? - é uma
dessas pérolas da ficção científica que ninguém ver de imediato, mas que provavelmente se tornará uma obra cult ao
passar do tempo como aconteceu com Blade Runner e Donnie Darkoeé tão surpreendente, instigantee original quanto outras pérolas fílmicas
recentes do gênero como O Predestinado, Lunar, Cidade das Sombras (1998), entre outros.
O diretor
William Eubank revelou recentemente que há planos para uma sequência. Espero
mesmo que aconteça, pois é um filme com um universo muito rico. Confira abaixo o trailer.