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1 de fevereiro de 2015

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância


 
O aspecto que mais chamou a minha atenção no elogiado filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman, 2014), foi o senso de humor dos personagens. Se você conhece a filmografia do cineasta, sabe que em seus filmes anteriores não há espaço para gracinhas, Babel, 21 Gramas e Biutiful, por exemplo, são muito sérios e dotados de forte carga emocional.


Com nove indicações ao Oscar 2015, Birdman alfineta o cinema de entretenimento e se caracteriza por ser tecnicamente impecável e ter um elenco respeitado, porém, mostra-se uma obra autêntica e ousada demais para a Academia - acho difícil (não impossível) levar o Oscar de Melhor Filme.


Birdman narra a história de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator que no passado alcançou a fama e o reconhecimento por interpretar o super-herói Birdman no cinema. Agora, vive no ostracismo, assombrado pelos antigos dias de prestígio e por uma voz perturbadora, e enquanto afoga-se em crises existenciais, o protagonista tenta mostrar o seu talento nos palcos de um teatro. É inevitável não comparar a trajetória de Thomson com a carreira de Keaton, que após viver o Batman nos anos 80 e 90, caiu no esquecimento geral. 

 Thomson  é perseguido pelo passado


Keaton está perfeito, entrega-se totalmente ao papel, o ator nunca esteve tão perto de ganhar um Oscar na sua vida. Ainda completa o elenco, Edward Norton, que vive um canastrão irritante que atormenta a vida de Thomson, sabotando a peça sempre que há uma oportunidade. Naomi Watts, que já trabalhou com Iñárritu em 21 Gramas, é uma atriz sem autoestima. Emma Stone interpreta a filha ex-viciada de Thomson, e por fim, tem Zach Galifianakis (Se Beber, Não Case) irreconhecível em um papel que não lembra nada o atrapalhado barbudo da comédia de sucesso. 


Além de atuações formidáveis de todo o elenco, Birdman tem maior acerto nas escolhas técnicas feitas pelo diretor. A câmera flutuante e os longos takes possibilitam o público adentrar no mundo dos bastidores da Broadway. É quase como estivéssemos ali vivenciando junto com os personagens todos os dramas e as situações hilárias. A trilha sonora, composta por solos de bateria nervosos, incomoda em certo momento, mas o ruído é essencial quando se pretende criar momentos de tensão.

 Atuações marcantes de Norton, Stone e Keaton


O humor negro presente no roteiro, a junção da realidade com a fantasia, além de um otimismo surreal - ausente na filmografia do diretor - faz de Birdman uma obra legítima, distinta de todos os outros trabalhos do Iñárritu. Portanto, a história rende-se a clichês que minimizam o brilho do longa acentuando assim a sua imperfeição. Como por exemplo, a personagem que escreve críticas sobre as produções da Broadway, cuja opinião decidirá o sucesso ou não de um produto cultural, foi uma escolha equívoca e óbvia demais. Tal figura é digna de comédias bobas adolescentes, não de uma obra do calibre do mexicano. 


Mesmo com pequenos, mas significativos equívocos, Birdman cumpre com louvor a sua principal proposta, analisar e criticar escancaradamente a indústria do cinema, acusada aqui por priorizar os remakes, sequências e filmes de heróis e de oferecer ao público o que ele realmente deseja: mais caos e destruição e menos diálogos. E não é verdade?  Confira o trailer.


NOTA: 8,0

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5 de março de 2014

Robocop (2014)



O perverso filme de Paul Verhoeven, Robocop (1987) é ainda um filmaço, infelizmente muitos ainda têm preconceito contra a obra, pensando que ela nada mais é que uma fita de ação oitentista descerebrada, pelo contrário, é um filme inteligente, ousado, com um texto ácido e crítico acerca da sociedade, e por fim, violentíssimo, uma qualidade de alguns filmes do cineasta. O que quero dizer é, mesmo que você confira o novo Robocop (2014), dirigido por José Padilha, também deve assistir a versão clássica, pois são duas obras completamente diferentes, exceto, o próprio protagonista, o policial do futuro.

O Robocop do Zé têm muito em comum com as suas obras anteriores, os dois Tropa de Elite, como a câmera nervosa, o subtexto político e principalmente o protagonista Alex Murphy. O cara é um policial incorruptível e um pouco “esquentado”, assim como o Capitão Nascimento. E por essas e outras razões, a nova versão não pode ser chamada de remake, pois se assemelha mais à Tropa que a obra original de Verhoeven.



O roteiro é original, mas a premissa é a mesma, um policial sofre um atentado e fica inválido, a única maneira de mantê-lo vivo é torná-lo uma máquina. A ênfase na relação de Murphy e sua família após tornar-se o Robocop, a tentativa da esposa em continuar tendo o marido por perto é característico da versão de Padilha, assim como a preferência do diretor em se concentrar na vingança pessoal do protagonista e dar menos enfoque ao trabalho diário do policial do futuro nas ruas. Se isso foi uma boa ideia, eu penso que sim, o roteiro de Joshua Zetumer é inteligente, dinâmico e difícil de prever as ações, exceto, pela parte final, boba e previsível.

Quanto aos temas sociais debatidos, Padilha usa Pat Novak, personagem de Samuel L Jackson (um Datena da vida) para arremessá-los na tela. Além de abordar a relação homem x máquina e o uso desta última em benefício dos humanos, se discute também uma gama de temas, o papel da mídia tendenciosa (incluso o próprio programa de TV de Novak), corrupção na esfera pública, ganância corporativa e outras questões moldam o enredo, que é intrincado demais para um filme de ação, e a meu ver, ficou devendo cenas de ação mais empolgantes.


O Robocop realista do cineasta brasileiro tem inúmeras qualidades, um elenco de renome e inspirado (Jackson, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish e Joel Kinnaman, escolha certeira de Padilha para viver o policial, eu já gostava do ator na série The Killing), sequências bem produzidas como o tiroteio ás escuras e o momento (engraçado até) em que Robocop captura “oficialmente” o seu primeiro criminoso durante a sua apresentação ao público. Padilha estreou muito bem em Hollywood, isto é motivo para nos orgulhar. Mas no término da sessão, fiquei com uma sensação de que “faltou algo”, além da vontade de rever o original.



NOTA: 7,5
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