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5 de março de 2014

Robocop (2014)



O perverso filme de Paul Verhoeven, Robocop (1987) é ainda um filmaço, infelizmente muitos ainda têm preconceito contra a obra, pensando que ela nada mais é que uma fita de ação oitentista descerebrada, pelo contrário, é um filme inteligente, ousado, com um texto ácido e crítico acerca da sociedade, e por fim, violentíssimo, uma qualidade de alguns filmes do cineasta. O que quero dizer é, mesmo que você confira o novo Robocop (2014), dirigido por José Padilha, também deve assistir a versão clássica, pois são duas obras completamente diferentes, exceto, o próprio protagonista, o policial do futuro.

O Robocop do Zé têm muito em comum com as suas obras anteriores, os dois Tropa de Elite, como a câmera nervosa, o subtexto político e principalmente o protagonista Alex Murphy. O cara é um policial incorruptível e um pouco “esquentado”, assim como o Capitão Nascimento. E por essas e outras razões, a nova versão não pode ser chamada de remake, pois se assemelha mais à Tropa que a obra original de Verhoeven.



O roteiro é original, mas a premissa é a mesma, um policial sofre um atentado e fica inválido, a única maneira de mantê-lo vivo é torná-lo uma máquina. A ênfase na relação de Murphy e sua família após tornar-se o Robocop, a tentativa da esposa em continuar tendo o marido por perto é característico da versão de Padilha, assim como a preferência do diretor em se concentrar na vingança pessoal do protagonista e dar menos enfoque ao trabalho diário do policial do futuro nas ruas. Se isso foi uma boa ideia, eu penso que sim, o roteiro de Joshua Zetumer é inteligente, dinâmico e difícil de prever as ações, exceto, pela parte final, boba e previsível.

Quanto aos temas sociais debatidos, Padilha usa Pat Novak, personagem de Samuel L Jackson (um Datena da vida) para arremessá-los na tela. Além de abordar a relação homem x máquina e o uso desta última em benefício dos humanos, se discute também uma gama de temas, o papel da mídia tendenciosa (incluso o próprio programa de TV de Novak), corrupção na esfera pública, ganância corporativa e outras questões moldam o enredo, que é intrincado demais para um filme de ação, e a meu ver, ficou devendo cenas de ação mais empolgantes.


O Robocop realista do cineasta brasileiro tem inúmeras qualidades, um elenco de renome e inspirado (Jackson, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish e Joel Kinnaman, escolha certeira de Padilha para viver o policial, eu já gostava do ator na série The Killing), sequências bem produzidas como o tiroteio ás escuras e o momento (engraçado até) em que Robocop captura “oficialmente” o seu primeiro criminoso durante a sua apresentação ao público. Padilha estreou muito bem em Hollywood, isto é motivo para nos orgulhar. Mas no término da sessão, fiquei com uma sensação de que “faltou algo”, além da vontade de rever o original.



NOTA: 7,5

29 de novembro de 2010

É NASCIMENTO O HERÓI NACIONAL DO SÉCULO 21?

O filme materializa na telona o desejo de muitos brasileiros: ver um policial lutando contra o sistema. O que já é motivo suficiente para ir ao cinema!




Tropa de Elite 2 é um fenômeno. Ninguém estava esperando o sucesso estrondoso do filme, nem o diretor José Padilha. Tropa ficou sete semanas na liderança dos filmes mais vistos no Brasil , e se os bruxinhos da J. K. Rowling não aportasse nos cinemas na terceira semana de novembro ainda permaneceria por mais algumas. O blockbuster brasileiro estrelado por Wagner Moura está quase superando o filme Dona Flor e seus dois maridos que levou 10,7 milhões de pessoas às salas de cinemas no longínquo ano de 1976. Até agora, o público do filme de Padilha é de 10,1 milhões de espectadores. É o filme mais visto do ano no país. Nem a pirataria pode interferir na carreira do filme nos cinemas que, certamente, deve ultrapassar o longa da Dona Flor.

Tudo bem, Tropa de Elite 2 é um sucesso. Em termos narrativos e técnicos, é superior ao primeiro. Mas a que se deve todo esse êxito? O que está atraindo o público às salas escuras?

Segundo a revista Veja, grande parte dessa aclamação do público vem de um desejo comum dos brasileiros de poder caminhar pelas ruas das cidades sem sofrer algum tipo de violência e que essa garantia seja gerida por uma polícia honesta, incorruptível. Assim, Coronel Nascimento é tido como um tipo de justiceiro ideal, aqueles que todos querem ver atuando em sua comunidade. Um herói nacional. “Como o Estado falha na segurança, nós, que somos vítimas, temos a tendência de buscar soluções personalizadas, individuais. Nascimento dá vazão a essa ânsia por soluções imediatas. Ele é um justiceiro do século XXI brasileiro”, disse Padilha à revista.

“Para o estudante de psicologia César Gomes, 26 anos, o sucesso do filme é porque o público veem na figura do Nascimento, um herói, que não existe na realidade. “É ele versus o sistema”, afirma. “No primeiro filme, Nascimento não é vilão, nem herói. No segundo, ele já é visto como herói, porque não temos no Brasil, um herói que represente o país, como existe o Capitão América, ou o Superman, nos Estados Unidos” argumenta César.

Denise Alcântara discorda dessa atribuição de “herói” ao protagonista do longa. A universitária que cursa Relações Públicas, diz que o Nascimento é um idiota. Ela justifica: Ele já matou tanta gente e nunca pensou por um segundo porque ele estava matando? Não acredito naquela idéia de que o ser humano é ruim por natureza, acho que as pessoas se transformam de acordo com o ambiente em que vivem. No primeiro filme ele era apenas mais um que matava as pessoas, agora é um idiota consciente, porque agora ele sabe o porquê ele matava as pessoas do morro”, diz Denise. Ela achou o filme interessante, porque mostrou uma realidade pouco conhecida pela maioria das pessoas. “Não foi um filme de luta, violento, como o primeiro em que mostrava que "bandido tinha que morrer". No segundo filme foi apresentado um lado mais social”, conclui.

“Gostei do filme, provoca uma reflexão sobre a nossa condição política, mas o final é fictício”, relata César. “Ninguém vai ao Congresso denunciar os corruptos, criar uma CPI. Isso não acontece”, complementa o universitário se referindo á cena em que Nascimento vai ao Congresso e denuncia diretamente os deputados corruptos presentes ali causando o maior alvoroço no local, enquanto os acusados “berram” desesperadamente alegando serem falácias as acusações do coronel. Certamente essa cena pode parecer utópica na vida real, mas é um episódio que, graças ao diretor, materializou o desejo de muitos brasileiros de verem algum dia tal cena em algum telejornal.

O surpreendente sucesso do filme pode ser justificado por duas razões. Em primeiro lugar, o público brasileiro foi às salas pensando que iria ver mais pancadaria, outra fita de entretenimento, porém não absorvendo nada da mensagem transmitida. Em segundo, os mais de dez milhões de pagantes querem deixar um aviso de que há uma vontade do brasileiro de conhecer mais a fundo a realidade política da nação onde vive, além obviamente, da possibilidade – ainda que fictícia – de ver um policial honesto lutando sozinho contra um sistema falho e fazedores de corruptos.


Os universitários Denise e César tem opiniões contrárias sobre a absorção – ou não – das questões sociais abordadas no filme pelo espectador. Enquanto o primeiro diz que sim, a mensagem é dada ao espectador de forma bem mastigada propositadamente, para as pessoas perceberem o que está se falando na tela. O estudante de psicologia diz que não, a maioria dos espectadores não compreendem a mensagem que o filme transmite, concentram-se apenas na parte superficial, saem do cinema e logo esquecem o que foi visto e dito.

Para José Padilha, diretor dos dois Tropas, o fato do segundo filme ter passado dos dez milhões de espectadores indica que o público está interessado em pensar a realidade através do cinema político e que este tipo de cinema pode, sim, ser popular. “Para mim, esta é uma fonte de motivação. Me estimula a pensar em novos filmes, e a continuar o trabalho de roteirista e diretor que sempre quis fazer”, afirmou o diretor à revista Exame. Bom, se Padilha pensar em fechar uma trilogia para a saga do Cel. Nascimento, já teremos o nosso próprio “Bourne” a brasileira, ou o nosso “Dirty Harry” brazuca. O nosso próprio (anti) herói de ação nacional, ainda que seja apenas nas telonas.

8 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro

Cap. Nascimento, o nosso anti-herói, está de volta! 
E os políticos que se cuidem!


“Por mim eu trancava eles aí dentro, jogava a chave fora e deixava eles se foder sozinho”. Esta é a voz do nosso anti-herói brasileiro, Capitã. Nascimento - que agora é Tenente-Coronel do BOPE - sobre o conflito entre os bandidos no presídio Bangu 1. São os primeiros minutos de Tropa De Elite 2 (2010) – depois dos créditos iniciais embalados por aquela música horrenda do Tihuana.


Nesta sequência, o alvo do Coronel Nascimento (Wagner Moura arrebenta, em todos os sentidos), que agora ocupa o cargo de subsecretário de segurança do Rio de Janeiro, são os políticos e os corruptos. Quer dizer, os políticos corruptos. Com esse poder nas mãos, Nascimento consegue dar um jeito na bandidagem, no tráfico carioca. Mas ele descobre que aqueles traficantezinhos do morro não são nada comparados a um esquema que envolve políticos e policiais, que se beneficiam da ausência dos traficantes para ganhar poder e mais dinheiro e claro, votos, pois é ano de eleições e todos querem “mostrar serviço” à população e à imprensa.



O personagem de Nascimento está mais maduro, complexo, humano. Sua vida anda complicada também. Além de lidar com esse novo trabalho – ele quer foder com o sistema – tem que lidar com o filho que lhe ignora e com Fraga (Iradhir Santos) um ativista dos direitos humanos, casado com sua ex, e que não gosta nada dos métodos violentos e não convencionais do BOPE.

O diretor José Padilha consegue algo quase impossível: superar o primeiro filme. Nesta segunda parte, ainda tem alguns elementos presentes no original: a violência, o realismo, a crítica social, a polêmica, a tensão quase ininterrupta e a tal sacola de plástico sendo usada para embalar cabeças. Mas é inegável notar o amadurecimento dos personagens principais, a trama bem desenvolvida e mais complexa. Ainda é visível perceber em cada frame, os motivos que levaram Padilha a realizar esta sequência, a vontade de querer ver - e mostrar - o Cap. Nascimento combatendo esses novos inimigos que – a meu ver – são muitos piores que o traficante da esquina.



Deputado corrupto: igual a muitos reeleitos este ano!

Padilha conseguiu fazer de Tropa de Elite 2 um produto de entretenimento com conteúdo, queria também que o espectador saísse do cinema levando consigo uma reflexão sobre a condição política atual do Brasil e seus representantes cada vez mais inaptos e analfabetos. E se Padilha quiser realizar uma trilogia, o Brasil agradece. Teremos o nosso Bourne à brasileira.
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