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21 de agosto de 2017

Um Contratempo – um exercício de percepção



Talvez você não saiba, mas o cinema espanhol tem uma contribuição bastante significativa ao gênero suspense/mistério e que deveria ser mais prestigiada pelo público em geral, posso citar alguns exemplares de língua espanhola que compensa qualquer possível trabalho de ter que procurar tais obras na web, por exemplo, as obras-primas de Guillermo Del Toro A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno, A Pele que Habito de Pedro Almodóvar, do diretor Alejandro Amenábar tem os ótimos Tesis – Morte ao Vivo e Preso na Escuridão (Abra Los Ojos, que ganhou versão péssima com Tom Cruise chamada Vanilla Sky), o tenso REC e o elogiado El Cuerpo, este último, do promissor Oriol Paulo, que também é o responsável pelo thriller mais surpreendente que você verá neste ano, Um Contratempo (Contratiempo, 2016), disponível na Netflix e objeto principal dessa crítica.


Graças à sua disponibilidade na famosa plataforma on-line, Um Contratempo tem ganhado aos poucos reconhecimento e um público cativo. Não me espanta se o filme espanhol brevemente ganhar um remake “meia boca” de Hollywood e o diretor Paulo for convidado para assumir outra refilmagem desnecessária, impedindo o cineasta de trabalhar em projetos originais e possivelmente mais interessantes.

10 de janeiro de 2015

O Abutre – A desgraça alheia como protagonista




O prazer do público em assistir a desgraça alheia nos telejornais - principalmente - é o que norteia o sombrio O Abutre (Nightcrawler, 2014), do estreante diretor Dan Gilroy e protagonizado por Jake Gyllenhaal.


Lou Bloom (Gyllenhaal) é um homem solitário e sem muito tato com as pessoas, sem emprego, vive de pequenos roubos. Já na primeira cena do filme, fere um segurança e rouba o seu relógio com uma frieza assustadora. Após descobrir que pode ganhar dinheiro filmando acidentes e crimes na violenta noite de Los Angeles a  fim de vender para os telejornais, Lou se dedica com afinco à profissão de cinegrafista.

  Sem medo e limites


Esperto, ambicioso e com um conhecimento advindo de cursos online, suas frases parecem tiradas de um livro de Administração, a sinceridade cortante e o jeito frio com o qual trata as pessoas apenas realça a sua dificuldade de socialização.


Durante o filme, vamos conhecendo e nos impressionando cada vez mais com o protagonista, sem moral alguma, Lou não tem rédeas, se for preciso manipular uma cena de crime para que a imagem fique melhor na televisão, ele fará. Afinal, a violência é o que dá audiência, “quanto mais sangue, melhor”, atesta Lou em algum momento. Infelizmente, a realidade cruel de O Abutre é a nossa realidade. 


Os títulos que Lou dá aos seus vídeos no seu “portfólio sangrento” reflete com exatidão as manchetes sensacionalistas dos jornais mais populares, aqueles que se você espremer a folha sairá sangue. Este momento em que o personagem nomeia seus vídeos, por si só, já é uma crítica mordaz à mídia sensacionalista e à sociedade que busca este mórbido prazer nos infortúnios alheios.


Gyllenhaal, indicado para Melhor Ator no Globo de Ouro e em outras premiações da temporada, magrelo e com olhos tão expressivos que dizem mais que palavras ditas, está estranhamente sensacional no papel do sociopata Lou Bloom, um personagem que não odiamos por completo, ele tem qualidades que admiramos e temos noção de que seu trabalho decorre do mercado lucrativo que a violência se tornou, ele está apenas colhendo os frutos de sua dedicação e esforço como profissional.


Além de Jake Gyllenhaal e da boa condução de Gilroy, O Abutre tem outros atributos, o humor negro que desconcerta, uma narrativa fluida e tensionada e uma incrível sequência de perseguição de carros. Incômodo e niilista, O Abutre é dessas obras que ficam na sua mente por um bom tempo.



NOTA: 9,0


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5 de novembro de 2013

Following - O primeiro quebra-cabeça de Christopher Nolan



O cineasta mais prestigiado do cinema atual, Christopher Nolan, cuja filmografia não há um risco sequer, Seja de baixo orçamento (Amnésia) ou blockbusters (A Origem, Trilogia Batman), as obras cinematográficas do inglês são todas imperdíveis, impecáveis do ponto de vista técnico e ousadas em termos narrativos.  

Já que estamos falando em narrativas, o primeiro trabalho do diretor, Following (1998), tem como principal atrativo a história, ou melhor, a forma como ela é contada. A trama é desenvolvida de uma forma não-linear, o que mais tarde se tornaria sua marca registrada. Following é uma espécie de “projeto” do seu filme seguinte, Amnésia, porém, é um “esboço” bem elaborado, intrigante e envolvente até o último minuto.

"Eu sigo pessoas".

O homem, que às vezes diz chamar-se Bill (Jeremy Theobald), é um aspirante a escritor, tem uma vida vazia e sua rotina baseia-se em seguir pessoas aleatórias nas ruas.  Para não ser percebido o jovem tem algumas regras, como nunca seguir o mesmo indivíduo mais de uma vez. No entanto, ele quebra essa regra quando Cobb, um dos “seguidos” vai ao encontro de Bill e lhe pergunta por que ele está sendo vigiado. Cobb (Alex Haw) é um ladrão. Ele entra e sai das residências para roubar pequenos objetos, principalmente coisas pessoais. Não demora muito para que os dois comecem a invadir as casas juntos, e a partir daí iniciam os problemas e as traições.

O primeiro longa-metragem de Nolan tem alguns fatos curiosos que são relevantes mencionar. Como vocês perceberam, Cobb também é o nome do personagem de Leonardo DiCaprio em A Origem. Outra coisa, numa determinada cena, há o símbolo do Batman estampado numa porta. Nem preciso falar mais nada né, certamente no final dos anos 90, Nolan, que lutou bastante para finalizar este filme -  as  filmagens duraram quase um ano, pois o elenco só tinha o fim de semana livre para filmar – não imaginaria que  sete anos mais tarde ele estaria lançando Batman Begins, o primeiro capítulo de uma trilogia mais que bem sucedida, e que se transformaria no cineasta mais requisitado e querido do momento.

Clima noir em Following

Como já disse, Following tem como principal triunfo a narrativa não-linear. O longa foi filmado em preto e branco, a produção é modesta, um traço que apenas ressalta a presença das personagens na produção e permite direcionar o nosso olhar exclusivamente para os dois protagonistas – misteriosos e interessantes  demais - e em suas ações, o que é ótimo.

O thriller é um delicioso quebra-cabeça cujas peças são jogadas na cara do espectador aleatoriamente. E elas somente se encaixam no último minuto da fita, desvendando aí um enredo intrincado - que vai e volta no tempo - e tão esperto que dá vontade de rever o filme assim que sobe os créditos. Como a produção tem apenas 69 minutos, uma reprise é bastante tentadora. Assista o trailer.


NOTA: 8,0

2 de outubro de 2013

Obsessão (The Paperboy)



Estreia esta semana por aqui na terrinha o “novo” trabalho de Lee Daniels, Obsessão (The Paperboy, 2012). Eu digo “novo”, com aspas, porque o longa estreou nos EUA mais de um ano atrás, tempo suficiente para que todos os fãs de Nicole Kidman e de Zac Efron principalmente, pudessem conferir o menino de cueca branca na telinha do PC, e tanto tempo se passou desde a sua estreia original que o cineasta já lançou outro filme lá fora, o sucesso O Mordomo, desde já um forte candidato ao Oscar 2014. Pensei que Obsessão seria lançado no início do ano, época das premiações - Kidman até foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação nesta produção - mas ele estreia só agora em outubro. Que descaso. Mas caso a sua internet seja lenta e você não baixou o filme, ele está agora nos cinemas.

The Paperboy ficou conhecido nos festivais e na mídia sensacionalista como o filme em que Nicole Kidman urina em Zac Efron. Alguns consideraram a cena chocante. Bom, Kidman disse em uma entrevista que não achou nada disso e alegou que “violência choca mais”. Povo puritano. Eu também não achei a cena nada perturbadora, é inusitada, mas acredite, há outras cenas bem mais desconcertantes. Na verdade, Obsessão é cheio de momentos chocantes cujo único objetivo é mesmo incomodar o espectador.

Um furacão chamado Charlotte.

Obsessão é baseado no livro de Pete Dexter e conta com um elenco estelar e performances dignas. Na trama, Matthew McCounaghey volta à sua cidade natal para investigar um assassinato e provar que Hilary (John Cusack, assombroso) é inocente. Junta-se a ele a vulgar Charlotte (Kidman) que é apaixonada pelo prisioneiro, o irmão Jack (Zac Efron) e um jornalista arrogante interpretado por David Oyelowo. Todos desempenham bem seus papéis, mas é Kidman que se destaca como uma Barbie despudorada, sexy, engraçada e que parece está sempre chapada.  

Podem falar mal do botox da atriz, mas sua atuação é incrível e sabe aquelas cenas desconcertantes que falei, bem, ela está na maior parte delas.  Macy Gray, a cantora, também está no elenco e se destaca como a empregada Anita, que trabalha na casa de Jack (Efron).  Sua relação terna com o garoto constrói alguns momentos comoventes, o que soa estranho em uma película permeada pelo erotismo e cenas que soam ridículas, mas isso é algo bom, pois percebe-se que o diretor quis fazer um filme que causasse reações das mais diversas.

Matthew e Zac: atuações marcantes.

Como aconteceu em Preciosa, Lee Daniels estabelece uma narrativa que inclui a discussão de temas sociais como o racismo e utiliza-se de cenas desconfortantes para impactar o público, a diferença é que em Obsessão, ele tomou gosto pelo “incômodo” ,  e lhe dou o mérito por tal escolha. Finalizando, Obsessão é provocante e sensual demais, um thriller incomum, mas muito merecedor de um ingresso de cinema.


NOTA: 7,5

5 de setembro de 2013

Eden Lake (Sem Saída)



A soma de um sistema educacional falho com lares disfuncionais pode criar os piores tipos de seres humanos. Esta é a base do elogiado Sem Saída (Eden Lake, 2008), thriller psicológico violento que passou despercebido pelo público brasileiro na época, mas que ainda merece toda a nossa atenção. A produção conta com Michael Fassbender - um pouco antes de cativar Hollywood em Bastardos Inglórios - um dos astros mais requisitados do momento e um dos meus atores preferidos da atualidade.

A trama é simples. Steve (Fassbender) e Jenny (a exótica Kelly Reilly de O Voo) formam um casal adorável e apaixonado. Eles vão passar o final de semana em um lago um pouco distante da civilização. Lá, se deparam com um grupo de adolescentes que transformarão o fim de semana em um inferno sangrento.



Sem Saída pode parecer clichê e genérico, mas não se engane. Graças ao roteiro inteligente, ácido e (muito) ousado de James Watkins (que também dirige o filme), o thriller tem muitas qualidades que o diferenciam de qualquer outro filme do gênero, como o desprendimento total em relação aos personagens e o final, no mínimo, estarrecedor. Mas não é só.

Eden Lake – prefiro o nome original do que o título em português, que também é o nome de um filme com Taylor Lautner – não usa a violência de forma gratuita, discute de forma severa uma questão polêmica: a inserção de jovens na criminalidade em razão da liberdade e má educação dada pelos pais, e para piorar o quadro, são adolescentes que se recusam a frequentar uma escola por não se adequar às regras estabelecidas pela instituição. Logo no início do filme, ouvimos pelo rádio uma discussão sobre este assunto, mas não podemos prever o que está para acontecer.


A temática da vivência em um determinado grupo social no qual um ser individual não tem voz própria e é obrigado a fazer o que o grupo – ou o líder – manda é abordado aqui de forma contundente e extremamente realista. Interessante ver também a desconstrução da personagem Jenny, professora, ela passará por situações terríveis perpetradas por adolescentes e que acenderá em si um lado negro que ela nunca conheceu antes.

Brutal, intenso e urgente, Eden Lake deveria até passar nas reuniões de pais nas escolas, não custa nada prevenir possíveis “monstros” na sociedade. Por coincidência, o drama A Caça, leia a crítica, que vi recentemente, tem uma trama que também envolve educadores que têm suas vidas “transformadas” por crianças e/ou adolescentes, cujas famílias sofrem do excesso de protecionismo. Assista ao trailer.  

NOTA: 8,0

23 de outubro de 2011

Hanna

A máquina mortífera aqui tem 16 anos
e um rostinho angelical






Logo nos primeiros minutos do longa conhecemos a linda jovem Hanna e a sua capacidade de transformar-se rapidamente, de uma menina inocente com carinha de anjo para uma assassina treinada e super eficiente. É ela, a personagem que dá nome ao filme, o principal destaque do novo trabalho de Joe Wright, diretor de dramas como Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, que resolveu se aventurar no gênero thriller de ação, e cá entre nós, se saiu surpreendentemente bem, já que esse filme é muito diferente dos anteriores.



Hanna (2011) tem como protagonista a linda e
talentosa Saoirse Ronan (Um Olhar do Paraíso) que como já disse, é a melhor coisa da fita, ela sabe ser uma garota doce e forte, ás vezes, e em outros momentos, é um “soldado” treinado dissimulado, tudo na medida certa.




Com 16 anos, Hanna leva uma vida diferente d
as outras garotas de sua idade (ela se dá conta disso quando se depara com uma adolescente na sua fuga), desde pequena vive na floresta com seu pai Erik (Eric Bana), um ex agente da CIA que a treina para ser a “assassina perfeita” . Bom, ela não é assim tão fria e robótica, também é educada, aprende vários idiomas, sabe quantos músculos o beijo pode envolver por exemplo, porém, seu conhecimento sobre música é limitado e nunca tinha visto uma lâmpada antes, apesar de saber quem foi o pai da eletricidade. Depois que Hanna e seu pai saem da floresta, eles são perseguidos pela temível agente da CIA Marissa Wiegler, interpretada por Cate Blanchett, e nem é preciso dizer o quanto maravilhosa ela está.

Após a impressionante cena de fuga de uma agência da CIA, Hanna - tanto a garota quanto o filme - dá um tempo na ação para focar nas descobertas da protagonista sobre o mundo exterior. Ela conhece pessoas, lugares, e começa a si conhecer melhor, ela percebe também que as suas habilidades mortais não são algo tão comum assim. 


O longa fica um pouco monótono em sua metade, mas não compromete o resultado final. Wright mostra que sabe conduzir um filme de ação, fato este que pode ser exemplificado pelas ótimas cenas de lutas, muito bem coreografadas – a menina é um Jason Statham de saias, impressiona mesmo – e que com a ajuda da ótima trilha do The Chemical Brothers, deixa as cenas ainda mais intensas e empolgantes.



Hanna é uma película interessante, apesar de um roteiro nada original, mas devido ao talento do diretor e uma protagonista forte, o longa consegue se esquivar dos “lugares-comuns” dos filmes do gênero e se sobressair graças também ao elenco, à trilha sonora e aos cenários peculiares, transformando Hanna em um filme imperfeito, mas que merece ser visto. Joe Wright deveria ser aventurar mais nesse gênero...
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