O homem cujas habilidades excepcionais é capaz de criar
artifícios para transitar entre épocas diferentes, ou seja, viajar no tempo, é
o mesmo que sucumbe à própria desgraça quando sua vida sofre uma reviravolta
infeliz e qualquer noção de racionalidade lhe é tirada. Que ser complexo é o
ser humano, não é mesmo? Essa dicotomia pode ser observada na série alemã Dark
(2017), que estreou no Netflix este mês e já considero uma das melhores do ano,
quiçá da década.
Na lúgubre cidadezinha alemã de Winden, um pai de família tem
sua vida virada do avesso quando seu filho menor desaparece misteriosamente, esta
é uma das tramas de Dark, série que tem sido comparada equivocadamente a
Stranger Things, felizmente, as semelhanças são mínimas e se esvaem já no
primeiro episódio, quando notamos a atmosfera sombria, a densidade e a
complexidade da trama, na qual iremos ficar absortos durante os próximos nove
capítulos.
Criada por Baran bo Odar, Dark explora elementos comuns em
produções de ficção científica como buraco de minhoca, viagem no tempo e
conceitos de física quântica – se você já viu a série Fringe e os filmesCoherence, Interestelar eO Predestinado irá se deleitar com a história, no
entanto, a parte complicada e também o maior trunfo de Dark são as três linhas
temporais que envolvem membros de quatro famílias, é bem fácil você se perder e
não saber quem é quem e não conseguir enxergar a ligação entre os tantos
personagens, uma árvore genealógica das famílias – como essa que a Mundo Estranho elaborou – seria ótimo para consultar enquanto ver os episódios.
Vendido como “suspense espacial”, Passageiros (Passengers,
2016) está mais para “romance espacial”, tendo isso em mente, fica mais fácil
você gostar do filme e evita frustrações. Dirigido por Morten Tyldum (O jogo da
imitação), Passageiros é um sci-fi raso, repleto de clichês e não traz nenhuma
novidade ao gênero.
Chris Pratt e Jennifer Lawrence protagonizam essa história de
romance no espaço, e ainda bem que eles possuem química em cena e convencem
como casal apaixonado, pois é claro que os dois astros mais queridos e
cultuados de Hollywood do momento não estão juntos aqui à toa. Felizmente, o
carisma dos atores evita que o filme seja um total fiasco.
Apontado por mim, nesse post, como um dos filmes de ficção
científica mais promissores do ano, Destino Especial (Midnight Special, 2016) superou as minhas expectativas, e melhor ainda, a obra scifi mostra a faceta spielberguiana
de Jeff Nichols, cineasta de marca autoral e responsável pelo desconcertante O
Abrigo.
Michael Shannon (sempre ótimo em cena) encabeça o elenco e interpreta Roy, pai de
um garoto com poderes extraordinários e que tenta, a todo custo e com um amor e
dedicação incondicional, proteger o seu filho. Com uma força sobrenatural capaz de derrubar satélites da atmosfera da Terra,
Altom (Jaeden Lieberher) é visto pelo governo americano como uma arma, já para
um grupo de religiosos, ele é um salvador. Para fugir de toda essa gente, Roy,
com a ajuda do amigo Lucas (Joel Edgerton), parte numa jornada repleta de desafios e descobertas.
Há cinco anos, J. J. Abrams homenageou
Steven Spielberg e os clássicos juvenis dos anos 80 com o suspense Super 8, cuja trama era propositalmente semelhante a
E.T., O Extraterrestre. Ontem, estreou a excelente série de ficção e
suspense Stranger Things, produção original da Netflix, que também é uma ode à
cultura pop oitentista.
Stranger Things “respira” anos 80 até nos mínimos detalhes (pôsteres
de Tom Cruise e de filmes clássicos como A
Coisa e Evil Dead enfeitam os cenários); a “viajante” trilha repleta de sintetizadores da abertura lembra a
ficção Tron, clássico lançado em 1982; o hit Shoul I stay or should I go, do
The Clash, é presença constante na série; sem falar nos elementos spielberguianos inspirados –
descaradamente – por filmes como E.T., Os Goonies e Contatos Imediatos de Terceiro
Grau, como por exemplo, a turma de garotos caminhando em uma linha do trem ou
andando de bicicleta, que se envolve em uma trama de mistério e tenta resolvê-lo por conta própria.
O que seria dos cinéfilos sem a originalidade e a lucidez do
cinema de baixo orçamento, ainda bem que nem todos possuem o cacife dos chefões
dos estúdios para produzir obras cinematográficas grandiosas, mas “vazias” e
previsíveis. Elogiado no Festival de Sundance, em 2014, a ficção científica O
Sinal – Frequência do Medo (The Signal, 2014), é uma dessas obras
fílmicas que nos surpreende e nos tranquiliza porque é a confirmação de que
ainda há seres inteligentes fazendo cinema autoral e não adaptações de alguma coisa.
William Eubank, diretor desconhecido, por enquanto, comanda o
suspense sci-fi sobre três jovens que perseguem um sinal vindo de um hacker
poderoso. Nic (Brenton Thwaites, de O
Doador de Memórias), Haley (Olivia Cooke, de Bates Motel) e Jonah (Beau
Knapp) chegam numa cabana isolada no meio do deserto e ali o pesadelo tem início
e todos terão suas vidas transformadas de forma inimaginável. Ah, o elenco também
conta com o Laurence Fishburne, que me faz lembrar muito aqui o seu papel icônico
em Matrix.
O Sinal é um daqueles filmes que não se pode
falar muito, quanto menos você souber, melhor. No entanto, a produção explora
por um ângulo distinto, questões muito conhecidas dos fãs de ficção científica,
como os mistérios da área 51, conspiração governamental, alienígenas, realidade
versus alucinação e possui elementos
que lembra até o cultuado filme Distrito
9.
Apesar de ter cenas de ação impressionantes e efeitos
espetaculares – para uma obra de baixo orçamento – O Sinal tem um tom levemente intimista e emocional, não tem
correria, tudo acontece de forma natural, sem pressa, é um filme para assistir
com atenção, sem esperar por explosões intermináveis.
Outro ponto forte do filme é o roteiro bem amarrado, que nos
deixa desorientados e sem respostas até os últimos momentos do longa, que
culmina numa sequência de revelações bombásticas e ousadas. Destaca-se também o
ator Brenton Thwaites, que vive o protagonista, além da notável atuação, carrega o filme sozinho com garra e pose de herói
superior a muitos garotinhos de franquias milionárias.
O Sinal - Frequência
do Medo- que título horrendo, não? - é uma
dessas pérolas da ficção científica que ninguém ver de imediato, mas que provavelmente se tornará uma obra cult ao
passar do tempo como aconteceu com Blade Runner e Donnie Darkoeé tão surpreendente, instigantee original quanto outras pérolas fílmicas
recentes do gênero como O Predestinado, Lunar, Cidade das Sombras (1998), entre outros.
O diretor
William Eubank revelou recentemente que há planos para uma sequência. Espero
mesmo que aconteça, pois é um filme com um universo muito rico. Confira abaixo o trailer.
Com a estreia da arrebatadora série Sense8, produção muito bem recebida pelo público e que marca as pazes de Lana e Lilly Wachowski com o sucesso, resolvi listar as melhores obras das irmãs visionárias, pois a trajetória das roteiristas e diretoras não é calcada apenas por “insucessos” como
aponta a mídia incansavelmente. Algumas produções, é verdade, foram fracassos
de público e de crítica, mas nunca se deve dizer que suas obras são simplistas
e preguiçosas, pelo contrário, sempre há algo visualmente espetacular, enredos
intrigantes e complexos.
Ligadas Pelo Desejo (1996): Antes de abalar a humanidade com Matrix, Lana e Lilly lançaram
esta pérola dos anos 90. Ligadas Pelo Desejo (Bound) é um suspense muito bem
executado sobre duas lésbicas que planejam roubar a máfia e fugir com o
dinheiro. Jennifer Tilly e Gina Gershon protagonizam o filme e algumas cenas
tórridas de sexo. O longa foi aclamado pela crítica na época e abriu as portas para as cineastas (eles, na época), em Hollywood. Se você não viu a obra, ASSISTA AQUI no You Tube há o filme completo e dublado.
Matrix (1999): Não tem o que falar muito de Matrix, apenas que este filme
revolucionou Hollywood e mudou a forma de fazer o cinema de ação. Matrix foi um
divisor de águas na sétima arte e ainda continua influenciando obras fílmicas,
séries de TV e por aí vai. A complexa obra-prima das Wachowski mistura
religião, filosofia e tecnologia e ainda nos presenteia com cenas de ação que
nos surpreende até hoje, 16 anos após sua estreia.
Matrix Reloaded (2003): A continuação do filme estrelado por
Keanu Reeves é ambiciosa e nos dá em grande escala tudo o que vimos em Matrix.
As cenas de pancadaria são longuíssimas e digna dos melhores filmes de artes
marciais. As cenas de ação são fenomenais – como a interminável sequência na rodovia. Tudo é mais e maior.
Já a trama, só fica mais complicada. Como segunda parte de uma trilogia, não apresenta muitas respostas acerca do conceito
do que é a Matrix, mas diverte, enche os olhos e incita a massa cinzenta
a funcionar. Revolutions, a última parte, estreou no mesmo ano, mas não empolgou
muito, mesmo assim é uma trilogia obrigatória.
Speed Racer (2008): Depois de roteirizar o ótimo V de Vingança, as sisters comandaram este, queé o melhor “fracasso” cinematográfico da carreira delas. O público não “abraçou” o
psicodélico filme do garoto Speed Racer,
estrelado por Emile Hirsch e baseado em um famoso desenho animado. As cores fortes, o estilo retrô e a narrativa
inovadora, as cenas de corrida alucinantes espantaram o público.
Ninguém estava esperando por tanta inovação. Uma pena. Gosto muito desse filme.
Sense8 (2015): A produção é da Netflix, mas não é menos ousado do que as
outras obras cinematográficas de Lana e Lilly Wachowski. Sense8 - crítica aqui - foi filmada em oito cidades diferentes espalhadas pelo mundo
e é a produção mais “pé no chão” da dupla. A ficção científica conta a
história de oito pessoas que têm suas mentes conectadas, o que possibilita
compartilhar entre eles emoções e habilidades. A série tem personagens cativantes, momentos memoráveis e traz de volta aquela liberdade criativa que
tanto apreciamos nas talentosas irmãs.
Já é um fato. Sense8, nova série da Netflix, já pode ser
considerada a redenção das irmãs Lilly e Lana Wachowski, que desde o fim da
trilogia Matrix, vem colecionando desastres cinematográficos em termos de
crítica e bilheteria, como o ruinzinho O Destino de Júpiter. Ousada,
libertadora, intrigante e envolvente, Sense8 é incomparável e mostra que as
diretoras sabem construir uma história apoiada em personagens fortes sem
precisar de pirotecnias e efeitos especiais, marca registrada da maioria de
suas produções, além dos já citados acima, incluo ainda o morno A Viagem e o estonteante Speed Racer.
Em se tratando das Wachowski nada é tão simples assim, sempre
em seus projetos há um pouco de rebeldia, um desejo de fazer algo inovador e de
sempre superar um projeto anterior. Em Sense8, a ambição não está nos efeitos
visuais, mas na múltipla narrativa, que envolve oito personagens, cada um deles
em um canto do mundo e sem relação alguma. É claro que todos eles terão suas
vidas unidas em algum momento, pois eles têm algo em comum. E aí reside o
desafio das cineastas, contar uma história ambientada em locações reais de diversas cidades ao redor do mundo. Imagine o trabalho de logística que tiveram.
Um ator mexicano que esconde um romance amoroso. Uma coreana
executiva que luta vale tudo. Uma DJ islandesa. Um arrombador de cofres alemão.
Uma indiana farmacêutica com o casamento arranjado. Um motorista de van e fã do
Van Damme em Nairóbi. Um policial em Chicago. Uma transexual em São
Francisco. Todos eles são sensates, uma
espécie evoluída de seres humanos que tem o dom de compartilhar sentimentos,
lembranças e habilidades entre eles.
Sense8, como se pode perceber, é uma série multicultural e
uma das principais qualidades do seriado é a abordagem honesta e sem exageros
de tantas culturas distintas. Não vou me ater à história, veja por si mesmo,
mas digo que os oito personagens são apaixonantes e cada um deles tem uma
história que nos envolve profundamente. Me encanta a trama da transexual
Nomi e a caliente narrativa do astro de ação, Lito.
Além das Wachowski, que dirige a maioria dos 12 episódios da
primeira temporada, os cineastas Tom Tykwer (Corra Lola, Corra) e James
McTeigue (V de Vingança) também colaboram na direção. Com um roteiro das irmãs
em conjunto com J. Michael Straczynski (Guerra Mundial Z), Sense8 tem momentos
inesquecíveis, alguns catárticos e violentos – como todas as sequências de luta
que envolve Sun ou o motorista de Nairóbi, a cena de Lito “evocando” o Neo de
Matrix numa cena destruidora de ação, outros incrivelmente picantes, como o
sexo “grupal” entre alguns sensitivos e ainda há aqueles momentos emocionantes
e inexplicáveis, como o karaokê coletivo com a música What´s Up, clássico da 4 Non
Blondes - veja a cena abaixo - e o nascimento dos sensitivos ao som de uma ópera.
Sense8 é ambiciosa e ao mesmo tempo simples, seu enredo flui
de forma orgânica, sem reviravoltas grandiosas e incoerência. A questão
principal aqui são os personagens, os assombros do passado, o medo do futuro
desconhecido e incerto e a “descoberta” da necessidade de ajudar um ao outro.
Lito e Wolfgang: vai uma ajudinha ai?
O elenco é quase totalmente desconhecido, exceto por Naveen
Andrews de Lost e Daryl Hannah de Kill Bill. Miguel Ángel Silvestre (Lito) foi
visto em Os Amantes Passageiros; Doona Bae (Sun) esteve nos filmes A Viagem dos
Wachowski e em O Hospedeiro; Aml Ameen (Capheus) participou de Maze Runner:Correr ou Morrer; Jamie Clayton (Nomi) esteve na série Transform Me; Tina Desai
(a inidiana Kala) atuou em O Exótico
Hotel Marigold 1 e 2; Brian J. Smith (Will Gorski) tem o currículo mais
extenso, participou de séries como Defiance, The Good Wife, Gossip Girl e SGU
Stargate Universe; Tuppence Middleton (Riley) esteve em O Destino de Júpiter e
O Jogo da Imitação; entre todos esses, o mais conhecido para mim é o alemão Max
Rielmet (Wolfgang), eu já o tinha visto no intenso drama Queda Livre (Freier Fall), no qual vive um romance
homossexual tórrido.
Os 8 "sensates"
Sense8 é perfeita, a melhor obra das Wachowski em anos, digna
de todo o reconhecimento da crítica e do público, é hora de nos esquecermos de
todos os tropeços que as irmãs cometeram no passado, Lana e Lilly reencontraram
o tom e a “inspiração” na telinha. Acho que este é o momento de darem um tempo das
megaproduções cinematográficas. Por fim, a
sensação que fica após ver toda a primeira temporada de Sense8 é que a
série da Netflix é a materialização das ideias de seus criadores em sua forma
mais pura e cristalina.